Posted by JeFF


Martírio do fim

Pobre senhora
o amor que tanto assola
findou por redimi-la
redusi-la

Teu amado fora levado
As trevas o quiseram para sí
para a eternidade
aos campos do outro além

Onde antes pulsava um coração
hoje encontras dor
fatídicos se tornaram os dias
e as noites longas por demasia

Maldito orgão mutilado
por que antes existira?
Que fosses destinado à vagar alto mar
e a ressaca o arrebatasse

Chora senhora
seu leito de morte lhes da o direito
Assim como para poucos
tu o recebes com veemência

Lembra-te que teu amor
bem como teu coração, partira
e se em campos de outrora não arfeja
em futuros sonhos ja brilhas

 

Posted by JeFF




Opostos

Se teu corpo me atrai
e minha mente se distrai
e tua imagem se desfaz
Por fotos eu corro atrás
e a lembrança se refaz
e teu sorriso sagaz
so me arrasa ainda mais
Quando tiras minha paz
o beijo que doce se faz
se confunde aos demais
novamente a mente me trai
por tudo de bom que se abstrai

 

Posted by JeFF


O meu alcool

Meu corpo está sóbrio
Mas minha cabeça bêbada só sabe reclamar
Só quer descansar de tudo aquilo ou tudo isso

Todas as lembranças que me assolam
Tudo em minha volta não gira mais em torno de mim
Mas ainda assim não consigo parar de me embriagar

Quando tentei deixar tudo pra lá
Não tive chance, você não me deu chance
O vício nunca me abandonou, só se agravou

O frasco de alcool está vazio ao meu lado
A minha bebida continua sendo você
Quero me embriagar de você
Com você.

 

Posted by JeFF


O anjo dela

Ele sentou na varanda
Ela sentou na janela
Ele acendeu um cigarro
Ela não achou o dela
Ele tentava lembrar
Ela não conseguia esquecer
Que ele foi feito pra ela
E sem ela não da mais pra ser

Ela decidiu beber
Ele fumou mais um
Ela sentiu vento frio
Ele não sentiu nenhum
Se ela sentava no chão
Ele ia pra janela
Se ela de pé ficava
Ele só olhava pra ela

E ele tentava falar
Ela já não o ouvia
Ele tentava gritar
Ela já não percebia
E assim ela ia dormir
E ele sempre com ela
Lembrando seu antigo amor
Ele agora é o anjo dela

 

Posted by JeFF

Aí galera, esse é apenas um trecho da poesia "Os três mal amados", em homenagem ao seu escritor João Cabral de Melo Neto. Chorem.

O amor comeu meu nome,
minha identidade,
meu retrato.

O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia,
meu endereço.

O amor comeu meus cartões de visita.
O amor veio e comeu todos os papéis
onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas,
meus lenços,
minhas camisas.

O amor comeu metros e metros de gravatas.
O amor comeu a medida de meus ternos,
o número de meus sapatos,
o tamanho de meus chapéus.

O amor comeu minha altura,
meu peso,
a cor de meus olhos
e de meus cabelos.

O amor comeu minha paz e minha guerra.
Meu dia e minha noite.
Meu inverno e meu verão.

Comeu meu silêncio,
minha dor de cabeça,
meu medo da morte.

 

Posted by JeFF

Como estou a muito tempo sem escrever poesias, resolvi postar esse poema de "Cordel do Fogo Encantado" chamado "Jesus no Xadrêz", que diz assim:

No tempo em que as estradas
Eram poucas no sertão
Tangerinos e boiadas
Cruzavam a região
Entre volante e cangaço
Quando a lei
Era a do braço
Do jagunço pau-mandado
Do coroné invasô
Dava-se no interiô
Esse caso inusitado

Quando o Palmeira das Antas
Pertencia ao capitão
Justino Bento da Cruz
Nunca faltô diversão
Vaquejada, canturia
Procissão e romaria
sexta-feira da paxão

Na quinta-feira maió
Dona Maria das Dores
No salão paroquial
Reuniu os moradores
Depois de uma preleção
Ao lado do capitão
Escalava a seleção
De atrizes e atores

Todo ano era um Jesus
Um Caifaz e um Pilatos
Só não mudavam a cruz

O verdugo e os maltratos

O Cristo daquele ano
Foi o Quincas Beija-flor
Caifaz foi Cipriano
Pilatos foi Nicanô

Duas cordas paralelas
Separavam a multidão
Pra que pudesse entre elas
Caminhar a procissão

Quincas conduzindo a cruz
Foi num foi adivirtia
O Cinturião perverso
Que com força lhe batia

Era pra bater maneiro
Bastião num intidia
Divido um grande pifão
Que tomou naquele dia
D'um vinho que o capelão
Guardava na sacristia
Cristo dizia:
- Ô rapais, vê se bate divagar
Já to todo incalombado
Assim num vô agüentar
Tá cá gota pra duer
Ou tu pára de bater
Ou a gente vai brigar
Jogo já essa cruis fora
Tô ficando aperriado
Vô morrê antes da hora
De ficar crucificado

O pior é que o malvado
Fingia que num ouvia
E além de bater com força
Ainda se divirtia
Espiava pra Jesus
Fazia pôco e dizia:
- Que Cristo frôxo é você?!
Que chora na procissão
Jesus, pelo que se sabe
Num era mole assim não
Eu to batendo com pena
Tu vai vê o que é bom
Na subida da ladeira
Da venda de Fenelom
O côro vai ser dobrado
Até chegar no mercado
A cuíca muda o tom

Naquele momento ouviu-se
Um grito na multidão
Era Quincas
Que com raiva
Sacudiu a cruz no chão
E partiu feito um maluco
Pra cima de Bastião
Se travaram no tabefe
Pontapé e cabeçada
Madalena levou queda
Pilatos levou pancada
Deram um cacete em Caifaz
Que até hoje num faz
Nem sente gosto de nada

Dismancharam a procissão
O cacete foi pesado
São Tumé levou um tranco
Que ficou desacordado
Acertaram um cocorote
Na careca de Timote
Que inté hoje é aluado

Inté mesmo São José
Que num é de confusão
Na ânsia de defender
Seu filho de criação
Aproveitou a garapa
Pra dar um monte de tapa
Na cara do bom ladrão

A briga só terminou
Quando o dotô delegado
Interviu e separô
Cada santo pro seu lado

Desde que o mundo se fez
Foi essa a primêra vez
Que Jesus foi pro xadrês
Mas num foi crucificado

 

Posted by JeFF


Rápido demais

Algo nostálgico me passou pela cabeça.
Mas passou tão rápido que me deixou tonto.
Foi então que eu caí no teu colo outra vez.